Cuidado, arautos da ética, vocês não existem. a ética não tem arautos.
Pelo menos não para Kant, o cara dos imperativos categóricos.* A diferença crucial entre ética e direito é que os deveres jurídicos podem ser impostos à força. Os deveres éticos tem a ver com os fins que uma pessoa coloca para si. Se você tem um dever ético, ele é um dever para você mesmo. ninguém pode te obrigar.
mesmo que seja um dever ético de alguém, digamos, ajudar os outros. se ele faz isso porque alguém o obrigou, não se trata de ética. pode ser força, ou outra coisa que o valha, tipo direito, mas não é ética. É questão de auto-governo, para os fins que tem nessa vida. uma pessoa obrigada a ajudar os outros não está sendo ética, está sendo coagida, ora-bolas.
*que nem são tão categóricos assim. muita gente pensa que Kant é o cara da lei, a ser seguida a ferro e a fogo, quase superegóico. acontece que a palavra categórico, no português de hoje, denota uma ordem, mas não é disso que Kant falava. é algo ao qual você não tem alternativa, você não pode falar sim ou não, você simplesmente o faz, porque está de acordo com seus princípios. isso não quer dizer, por exemplo, que não existam ocasiões particulares onde as máximas não nos vinculem como categóricas.
1. ideia de sonho, pois bem, em Freud: realização
de desejo; pulsão que liga aos representantes possíveis, de maneira quase
amebesca, que ambíguam e codificam. É a loucura que a gente costuma viver. No sonho, em um momento você está em casa,
mas agora, ao abrir a porta que dá pra rua existe um rio. Ao redor do rio, os
velociraptors e uma figura que é seu avô, depois não é seu avô, depois é o
Lênin. Enfim, qualquer coisa, desde que represente outra coisa que aquilo que o
inconsciente queria representar, e de alguma forma ainda ligado a isso, um
código, né?
Posso até tentar fazer
narrativa, mas ela ainda não é exatamente o que é. Por incrivel que
pareça, o sonho é um fenômeno inconsciente até mesmo no sentido descritivo, quer dizer, mesmo que você ache que o controla, na real, não.
Tanto que a gente só lembra dos sonhos em uma ocasião, que é quando a gente os
tem logo antes de acordar. Podemos sonhar várias vezes durante a noite, mas
somente lembramos dele quando nossa consciência vigil o pega em flagrante
fazendo seja lá o que ele faz.
2.que bela satisfação é saber das coisas. É tanto assim, que
temos disciplinas voltadas à construção de um saber que é só pela vontade de
saber. Quando não temos isso, temos algo melhor, Deus por exemplo, ou um mito. Mas saber é o melhor, questão de domínio que não é tão distante , é lógico, do
prazer de dominar. você pode dominar um assunto como a humanidade dominou o
fogo, o que não impede que Brasília seja tomada de quando em quando pela névoa
seca, que é a fumaça que rola por aí das queimadas, com um bando de poeira.
Tinha uma época aí que se valorizava muito este tipo de
satisfação que era um insight. Você via as coisas e uma iluminação, isso fazia
sentido. Você pode chorar ou rir, mas mudar mesmo, bem... aí é que pode ficar
mesmo difícil de largar, porque pelo menos agora tem explicação. É uma coisa de
certa função do saber que nos deixa ignorantes para tudo que é não saber.
Dizendo com todas as letras: uma psicoterapia muito explicativa pode aprofundar
mais no sofrimento.
3. O sonho é uma organização do saber. A neurociência aponta
para sua importância na aprendizagem. se você quer aprender, durma bem. Muita
coisa é fixada no cerébro por este processo que chamamos de sonho. Um dia ruim,
por causa do sono, pode virar o dia seguinte. Um dia ruim, por causa do sonho,
pode ser bem aprendido como uma aula de física.
O sonho codifica. se o deciframos, como em uma psicanálise,
coisa curiosa, é um saber que faz revelar este saber inconsciente, é saber
saber, e o dia ruim volta em seu frescor, digamos, esquecido. A gente sabe das
coisas que a gente esquece?
Aboio é um tipo de canto de trabalho. É um cantar empostado, arrastado, de notas longuíssimas, cantadas durante o pastoreio de bois. Deixar os bois juntos com a sua voz, chamá-los, mas principalmente uma maneira de fazer o tempo passar, ou prolongá-lo tanto quanto a nota cantada. Como a maioria dos cantos de trabalho, tem certa tristeza, até porque trabalhar é ruim. Ruim, assim, um pouco mais que isso, porque implica toda a limitação de nossa vida, o tempo que a gente vende para subsistência própria ou reconhecimento dos outros. Mas no fim é esse sanguinho a mais que a gente dá que faz um lugar, uma cama pra dormir, um rango pra alma. Tudo isso está no aboio, inclusive a noção de que o boi que pasta e engorda é a gente mesmo, trabalhadores.
O disco “das terras de benvirá”, do Geraldo Vandré, vem nesse caminho dos cantos de trabalho, de alienação, tristeza. É um disco lindo, feito depois de sua volta após mais de quatro anos exilado. Desde então, assumiu um posto de funcionário público, afastou-se da música e foi trabalhar. Seu último disco foi este, quase todo cantado na forma do aboio, triste e em tons menores. O que aconteceu com Vandré depois é mal sabido, só se sabe que ele mesmo, em entrevistas, disse que não havia significado algum em continuar.
Claro que houve todas as questões, que ele teria sido torturado, castrado (?,!) e finalmente enlouquecido, escrevendo músicas para as forças armadas. De qualquer maneira, ele disse que se escreveu uma música como “Fabiana”, em homenagem à força aérea brasileira, porque ele ama e amou a aviação. Mas tudo parecia meio bizarro, devido a época vivida, seu engajamento anterior como combatente cultural da ditadura, como assim? Contradição. Vandré era um dos artistas mais engajados de sua época.
É bem por causa disso que ele foi primeiramente salvo da cadeia por Caetano Veloso, que tinha avisado que os policiais estavam a caminho de sua casa. Depois, finalmente preso e exilado. Voltou para o Brasil dizendo que nunca foi anti-militarista, o que deixou ele numa situação ruim com a esquerda da época. Mas ser anti-militarista e de esquerda não necessariamente coincide.
Fez então o disco de que falo aqui, todo cheio de pedidos à Deus, falando de pessoas perdidas, lembrando do “anel que tu me destes, eu guardei para me salvar”. Lamentos e um passado que dói de saudades. Um violão e uma gaita ou guitarra de acompanhamento, acordes simples e uma voz solta no vagar do aboio. Ia assumir, logo depois, uma carreira de funcionário público, próximo ao exército. Disse que nunca voltou do exílio e que não vive no Brasil. Aliás, diz que a maioria das pessoas que vivem neste país não mora mais no Brasil.
O ano era 1973, estamos em 2011. Deu uma entrevista esses dias para a Globo, que me impressionou pela ironia que trazia no rosto. Acham que está louco. Parece-me desiludido. largou a carreira artística, já se despedia neste disco e virou funcionário público, talvez para curtir em paz sua saudade.
Quem disse que ia pro fim da semana? Quem disse que é para a vida inteira? Apressa o passo que o prazo engana apressa o passo que na praia o tempo passa antes de passar
o tempo da história não é calendário arranco as paginas do dia errado dura dois anos dezoito brumario dura dois anos entre aniversários seu tempo passa antes de passar
e vem você me diz a calcular para onde vai uma tarde que passou? E me vem o pulso de uma canção escapar da mente pro coração sei lá qual dança que decifrará.
essa aí é uma canção. quem quiser escutá-la fala comigo
não é filme de terror do doutor mabuse olhando da tevê
é a impressão vívida do olhar da tevê ganhando não mais que a cor da caneta que escreve para não ler o medo no papel
o medo no papel não é o medo do golpe é o medo do esquecimento para transformar aquilo que acontecendo vai ficando e fica ali para tomar poeira para ser guardado na gaveta
o medo no papel não é o medo do relógio é o medo do calendário o momento vira memória e na hora lá diz que houve outras horas