Ao falar de questões que se passam nas relações entre o desenvolvimento emocional e o o desenvolvimento intelectual, Merleau-Ponty apresenta uma tese de que diversos componentes da nossa inteligência são desenvolvidos a partir de relações afetivas. Ele estava falando de coisas no domínio da psicologia, inclusive localizando esse saber com o intuito de não torná-lo totalizante. A psicologia o interessava na medida em que por meio dela se podia discutir algumas questões da sociologia para além do fato social e da filosofia para aquém das grandes categorias. Ele até coloca que o conhecimento, no sentido da intelecção, é mais da ordem do efeito que de causa.
Eu mesmo tenho algumas questões com a psicologia, porque o logos do psi é uma noção um tanto quanto complicada pelo mesmo motivo que foi exposto acima: conhecimento é mais efeito do que causa, especialmente no que tange ao psi. No entanto, os problemas que a psicologia pode vir a por são muito interessantes, desde que junto exista uma reflexão que a ultrapasse, como a sociologia por exemplo, e foi isso que realizou o Merleau-Ponty em suas aulas na Sorbonne, que são quase como um curso de psicologia crítica. Tá sendo ótimo lê-lo, quase como voltar às salas de aula onde fiz meu curso, mas com um professor de filosofia falando de psicologia.
Nesta problematização da psicologia ele fala dessa inter-relação (desenvolvimento emocional e desenvolvimento intelectivo) a partir de um exemplo, o da rigidez psicologica tal qual descrita pela Frenkel-Brunswik(1949). Esse estudo trabalhava a partir dos métodos projetivos, que pressupõem que a personalidade exprime-se no modo de estruturar os dados sensíveis, ou em bom português, a gente percebe as coisas de acordo com o que somos. A rigidez pesicologia é a atitude dos sujeitos que "a respeito de todas as questões dão respostas simples, sumárias, diretas e sem matizes e que estão pouco dispostos a reconhecer fatos discordantes". Bem, isso parece com muitas atitudes pela internet. São sujeitos em geral tradicionalistas que teriam uma personalidade muito dividida, que quando vão falar dos pais se atém apenas aos seus traços exteriores, com medo de neles descobrir imperfeições em profundidade.
Aqui quase cito o texto do Merleau Ponty: "Agressividade reprimida contra os pais. Esses sujeitos evitam toda ambiguidade e procedem por dicotomia (dilemas limpeza/sujeira, obediência/autoridade, virtude/vício, masculinidade/feminilidade). (...) As familias dessas crianças são, em geral, autoritárias e frustantes. A criança faz uma dupla imagem de seus pais: uma, abençoada, que aparece em primeiro plano; outra agressiva, que se oculta profundamente." A ligação desta questão afetiva com a percepção se daria em visões das coisas sumárias nesse sentido:
"As pessoas se dividem entre os fortes o e os fracos"
"Os professores deveriam dizer aos alunos o que tem que fazer em vez de perguntar o que desejam."
"Só existe uma maneira de fazer bem alguma coisa."
Todos os exemplos são do próprio Merleau-Ponty. Ele diz que isso não é ligado apenas a certas opiniões, porque o sujeito pode ser liberal, mas de um modo absoluto e abstrato: "todos os homens são idênticos, sobre todos os pontos de vista." O que faz a diferença não é você adotar tal ou tal tese (seja abolicionismo penal ou ser a favor da criminalização do aborto) mas a maneira como se adota, como se justifica, e como se ater a ela.
O que é interessante é que o argumento fica problemático se pensarmos em personalidade, até porque uma categorização como essa pode atrapalhar em ver as muitas nuances presentes, bem como dicotomiza, o que pode deixar o estudo como objeto dele mesmo, hehe. é um estudo um tanto rígido, mas pelo fato mesmo que ele não é "tudo de ruim" coloca a gente para perceber que muitos dos conflitos de percepção de mundo tem por fundo também certa questão com a afetividade própria a cada um.
A Melanie Klein, psicanalista que ela era coloca o problema lado a lado com outros conceitos: Ambivalência, que diz respeito fazer, quanto a um mesmo ser, duas imagens alternativas, uma boa e outra má, que não são vistas como fazendo parte de um mesmo objeto. Ou seja, bom e mau separados, não podendo estar no mesmo sujeito. Ambiguidade, que é algo da vida mais nuançada dos adultos, diz respeito a perceber duas imagens, mas que fazem parte do mesmo objeto.
Trazendo isso de outra forma: para perceber os objetos divididos, incompletos, não-todos, é necessário ver que os referentes são não tem uma característica apenas. Bom e mal não fazem parte do referente, são apenas nosso julgamento.
quarta-feira, 4 de março de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
A psicanálise no gerúndio.
Depois de escrever o texto sobre o texto do Dunker, eu fiquei pensando... Lacan dizia que o lugar de onde ele falava seu seminário era de analisando. Existe toda uma discussão sobre o lugar do analista e quanto mais eu me detenho nisso, percebo que o lugar do analista tem a ver com a sustentação ou de um silencio ou algo como um tuíte, meio curto e grosso, só para o analisando sair do lugar e continuar seu caminho de associação.
Quando a psicanalise começou quem falava era a histeria. O próprio Freud tirava suas ideias de sua auto-análise. o analista de Freud, ele não existia, mas a necessidade de haver um, quando se fala em análise, fez algumas pessoas conjecturarem que podia ser o Fliess, ouvinte crítico e amigo. Um sujeito mei loco, que tinha umas idéias de uma ligação entre sexualidade e nariz, e dizia que as pessoas tinham uma bissexualidade inerente. Esta última ideia, Freud retomou doidamente e radicalmente. O lugar da escrita da teoria psicanalítica é do analisando. o que o psicanalista faz não é exatamente teoria, apesar de ter um papel fundamental em seu desenvolvimento.
Em francês existe uma maneira de falar as coisas que não é exatamente igual no português, mas tem lá suas reverberações, tanto que eu acho que consigo explicar aqui. Analista não é contável, como você conta maçãs: uma maçã, duas maçãs... Analista, por ser um lugar, é incontável, é que nem água. Você não conta uma água, duas águas... ( a não ser que você esteja falando metonimicamente de copos de água) Você só diz: água. Em francês: Boire de l'eau. Em português seria algo como; vou beber da água. Daí, analista não seria um analista, mas sim uma parte numerável em si, mas apenas numerável como parte. Parece complicado, mas isso tem a ver com problemas de tradução e coisas que ocorrem ao pensar esse lugar curioso que é o do analista.
Ainda bem que em português temos como dizer isso de forma que francês nenhum pode dizer (sem esforço), porque temos o verbo estar. Você não é analista, você está analista. Até por colocar em jogo um certo des-ser, o verbo estar pode ser interessante para descrever. Engraçado, como se trata de um des-ser, a gente poderia dizer, em português, que para estar analista é importante descer do tablado.
Quanto a questão do analisando, cabe dizer que se fazer fazer teoria, burilar nas formações do inconsciente, incomodar-se com isso ao ponto de eliciar pensamento, é estar no lugar de analisando, mesmo que você tenha "atravessado a fantasia"(como dizem). Como tal, cada uma das formulações nesse lugar são no máximo provisórias e com necessidade de constante revisão. Vamos se falando.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Comentário do texto do Christian Dunker “Bolsonaro, deita aqui no meu divã”
Já digo desde já, que se alguém quiser entender o que
estou dizendo, leia o texto do link acima
Bolsonaro é um sujeito muito palha, acho ele um canalha. A pergunta
se põe a mim da mesma maneira que se coloca ao Dunker: o que fazer? No entanto não acho que o que se tenha a
fazer esteja relacionado à psicanálise, pelo menos não diretamente. A psicanálise
aí, viria por acréscimo, talvez eu indo pro analista para eu entender porque tanta
raiva do Bolsonaro. Fazer análise não necessariamente me faria ter menos raiva
dele, talvez apenas direcioná-la melhor.
Há diversas perguntas que se colocam no texto: O que fazer?
Parece pouco? Que são quase que tomadas pela decisão ou pelo dever de fazer
algo. Compartilho desse sentimento, mas sei que esse é um dever moral que nos
vem quando vemos algo que julgamos errado: há algo que podemos fazer para
evitar essa violência? Às vezes isso vem com o velho prazer de fazer alguma
maldade a quem faz o mal, como prender ou dar uns tapas mesmo. Aliás, o que é engraçado,
parece que alguns desses sentimentos movem o Bolsonaro, e é nesse espelho que é
interessante analisar os nossos. Acho
que seria muito legal, entre outras coisas, mostrar a desumanidade das palavras
e atos do deputado para que seja possível ver que esse bom que ele defende não
é tão bom assim. Para isso não precisa por o bom do nosso lado por completo,
basta complexificar o discurso porque as coisas são complexas.
Mas a cada uma das sugestões, uma pergunta se impõe: parece
pouco?
E o que parece muito?
Se não quisermos ser iguais ao Bolsonaro, é melhor reconsiderar nossa própria raiva
e o que podemos fazer a partir dela.
É engraçado, para dizer o mínimo, que Dunker afirme primeiro
a posição esquizo-paranóide Kleiniana, que enfatiza a cisão ente bons e maus
para logo depois, no parágrafo seguinte afirmar uma posição que informa o mundo
da mesma maneira: os universalistas e particularistas. “Eu sou universalista e
você particularista, seguimos filosofias diferentes, não dá pra conversar
porque você não compreende a ‘essência do
sujeito’(sic) como sendo fundamentalmente esta: vazio e dividido.” Opa, que
palavras pesadas, quanta identidade do analista, com um universal ainda por
cima. Não quero me arriscar tanto pelo térreno árido da filosofia, mas não vejo
necessidade alguma da psicanálise de afirmar universal algum, mesmo que seja
este universal negativo: “todo x é não todo”. Ora, afirmar “não todo x é não
todo”, é igualmente válido, a depender das contingências. Afirmar as contingências
é apontar para o não-todo, incluindo aí a enunciação de um universal. Esse tipo
de conversa nos leva ao doce pássaro do paradoxo, que aparece para a gente ter
cuidado com os enunciados, vermos os limites do espírito, nos determos mais na
analise da enunciação que do enunciado. Por exemplo: o que implica haver uma
pessoa que capture algo de universal com seu pensamento? O que isso equivale em
termos de saber-poder?
Esta cosmovisão é tão contingente quanto qualquer identidade
sexuada. Por perceber que o contingente opera no discurso dos psicanalistas que
podemos falar de psicanálise. O lugar do analista não implica uma visão de
mundo, mas uma destitução do sujeito. Ser
um sujeito implica ter uma visão de mundo até porque esta é a máscara necessária
para que este não se eclipse. Ainda assim há que se dizer que o sujeito não é
isso, porque há o inconsciente e ele está aí para que essas visões de mundo
sejam sintomáticas, ou que sejam desmentidas de quando em quando, ou para
servir de base inconfessa, enfim, muitas configurações possíveis.
Um dos meus problemas com o texto do Dunker é a forma de
pensar psicanálise e política. Lógico, dá pra fazer uma crítica bastante
agressiva, porque paternalizante, se você se colocar como analista para falar
do comportamento público de alguém. É uma vingança perfeita, mas como diria o
seu Madruga, “mata a alma e envenena”. O que é envenenado aqui é a própria psicanálise
e seus propósitos. É engraçado e me
percebo agora, é que nada impede de você querer fazer a mesma coisa com quem se
arroga de analista para falar do
comportamento de alguém. Espero estar escrevendo este texto no máximo como analisando
pensando a psicanálise. Ninguém é analista o tempo todo. Alguns tem dificuldade de se ver fora do lugar de analista. Psicanálise pode ser benéfica para qualquer um, não para todos. Nem todo mundo se beneficia da psicanalise.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
A felicidade de nossos atos
Felicidade
é uma palavra muito desejada e equívoca. Cada um tem sua ideia, claro, mas é
usada como se todo mundo soubesse do que se esta falando quando fala dela. Ela
não é referenciável da mesma maneira que uma cadeira ou uma casa por
exemplo. A felicidade não tem nada para
segurar. Ela não tem existência física. A única maneira de segurá-la é escrever
em um papel e segurar este papel.
Mas não
tem como negar que a palavra não é qualquer uma. Tem gente que sente falta e sabe muito bem o
que é. Acontece que mesmo sabendo, não
tem como pensar que seja a mesma coisa para um. Se tem alguma coisa que é certo sobre a
felicidade é que ela é particular, no sentido de que cada um tem a sua
concepção. Isso não impede que falemos sobre ela, mas põe a restrição de saber
que é uma visão a mais sobre o assunto.
Gostaria,
agora que algumas ressalvas foram feitas, de propor uma maneira de falar sobre
ela que faz uma leitura de um filósofo da linguagem, O J. L. Austin. Ele usa a
palavra felicidade no sentido de um bom desenlace para um ato. Por exemplo,
quando se diz: “Eu tentei demover o presidente da ideia de manter o fator
previdenciário, mas não fui feliz”.
De
acordo com Austin, não se pode pensar nas coisas que falamos apenas em termos
de verdadeiro e falso, mas em termos de atos felizes ou infelizes. Toda vez que
falamos, nós fazemos uma porção de coisas: pedimos desculpas, ordenamos,
declaramos, prometemos. A coisa é tão espalhada que cada vez que falamos nós
não apenas comunicamos, nós fazemos coisas. Esses tipos de atos, atos de fala,
ou são felizes ou infelizes. Quando alguém promete e não cumpre, ou quando
alguém ordena sem condições para tanto realiza um ato infeliz. O ato de fala feliz precisa de que as
condições destes atos sejam realizadas. Para que se possa prometer é necessário
que se assuma um compromisso, para escolher é necessário que existam
alternativas.
A ideia
de felicidade que proponho diz respeito a como fazer com que nossos atos sejam
felizes, que logremos em realizá-los.
Isso nos colocaria no lugar de ter uma ideia não enganosa de nossas
intenções, nossa ética, para pelo menos fazer algo de bom disso. Não que tenhamos
que cumprir todas as nossas promessas, mas no ato mesmo de realizá-las
estejamos conscientes do que nos move nesse sentido, até para não as
realizarmos em vão, com infelicidade. Existem motivações inconscientes que
podem nos tornar infelizes, até porque a intencionalidade nos era oculta,
tornando o ora o ato infeliz, ora a realização deste ato algo que pode tornar o
falante/atuante infeliz pela não tomada em conta de sua motivação.
É claro
que a felicidade de que falo aqui é de outra ordem daquela de uma vida feliz,
mas existe um espaço mínimo de intersecção entre elas. Por exemplo, se você
esta infeliz porque uma pessoa amada lhe deixou, porque não pensar que o ato de
renunciar pode ser feliz?
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Sobre a corrupção, quem mais vitupera contra ela é quem está mais próximo. é muito canalha um partido corrupto falando mal de outro partido corrupto. Ou pior, uma pessoa que não tem a menor estima pelo bem público sentir-se indignado com a corrupção. É precisamente a noção de bem público o que faz a corrupção e o seu melhor amigo, o patrimonialismo, serem tão aviltantes. Uma escola, um hospital, uma rua, as árvores ou a falta de árvores nessa rua, as festas de rua, a cidade, os ônibus que levam as pessoas nessa cidade, as condições de vida das crianças que nascem nessa cidade, a polícia e o que ela faz com os cidadãos dessa cidade, tudo isso é coisa pública. A melhor maneira de descobrir a hipocrisia ao falar de corrupção é se a pessoa estima o público. Agora, se única questão é sua vida privada, seu mérito, sua família, aí.. aí é de se perguntar se essa pessoa não seria corrupta se oportunidade aparecesse, porquê é projeção. "Defendo a família, tanto que emprego toda ela no meu governo" era o mote do João Plénario.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
universal do reino de de de de
uma palavra muito em voga, na esquerda e na direita. universal. igreja universal, universalismo. tem gente, como o Vladimir Safatle, que fala em universalismo radical. tem gente que fala em pretensões universalistas em Lacan. Qualé, né gente? uma das coisas que mostram a reticencia com que devemos assumir essas coisas é a própria igreja universal, a católica, com suas pretensões em trazer uma regulação universal. sabe quem mais é universalista? o pastor Marcos Feliciano.
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