quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Comentário do texto do Christian Dunker “Bolsonaro, deita aqui no meu divã”


Já digo desde já, que se alguém quiser entender o que estou dizendo, leia o texto do link acima

Bolsonaro é um sujeito muito palha, acho ele um canalha. A pergunta se põe a mim da mesma maneira que se coloca ao Dunker: o que fazer?    No entanto não acho que o que se tenha a fazer esteja relacionado à psicanálise, pelo menos não diretamente. A psicanálise aí, viria por acréscimo, talvez eu indo pro analista para eu entender porque tanta raiva do Bolsonaro. Fazer análise não necessariamente me faria ter menos raiva dele, talvez apenas direcioná-la melhor.

Há diversas perguntas que se colocam no texto: O que fazer? Parece pouco? Que são quase que tomadas pela decisão ou pelo dever de fazer algo. Compartilho desse sentimento, mas sei que esse é um dever moral que nos vem quando vemos algo que julgamos errado: há algo que podemos fazer para evitar essa violência? Às vezes isso vem com o velho prazer de fazer alguma maldade a quem faz o mal, como prender ou dar uns tapas mesmo. Aliás, o que é engraçado, parece que alguns desses sentimentos movem o Bolsonaro, e é nesse espelho que é interessante analisar os nossos.  Acho que seria muito legal, entre outras coisas, mostrar a desumanidade das palavras e atos do deputado para que seja possível ver que esse bom que ele defende não é tão bom assim. Para isso não precisa por o bom do nosso lado por completo, basta complexificar o discurso porque as coisas são complexas.   

Mas a cada uma das sugestões, uma pergunta se impõe: parece pouco?

 E o que parece muito? Se não quisermos ser iguais ao Bolsonaro, é melhor reconsiderar nossa própria raiva e o que podemos fazer a partir dela.  

É engraçado, para dizer o mínimo, que Dunker afirme primeiro a posição esquizo-paranóide Kleiniana, que enfatiza a cisão ente bons e maus para logo depois, no parágrafo seguinte afirmar uma posição que informa o mundo da mesma maneira: os universalistas e particularistas. “Eu sou universalista e você particularista, seguimos filosofias diferentes, não dá pra conversar porque  você não compreende a ‘essência do sujeito’(sic) como sendo fundamentalmente esta: vazio e dividido.” Opa, que palavras pesadas, quanta identidade do analista, com um universal ainda por cima. Não quero me arriscar tanto pelo térreno árido da filosofia, mas não vejo necessidade alguma da psicanálise de afirmar universal algum, mesmo que seja este universal negativo: “todo x é não todo”. Ora, afirmar “não todo x é não todo”, é igualmente válido, a depender das contingências. Afirmar as contingências é apontar para o não-todo, incluindo aí a enunciação de um universal. Esse tipo de conversa nos leva ao doce pássaro do paradoxo, que aparece para a gente ter cuidado com os enunciados, vermos os limites do espírito, nos determos mais na analise da enunciação que do enunciado. Por exemplo: o que implica haver uma pessoa que capture algo de universal com seu pensamento? O que isso equivale em termos de saber-poder?  

Esta cosmovisão é tão contingente quanto qualquer identidade sexuada. Por perceber que o contingente opera no discurso dos psicanalistas que podemos falar de psicanálise. O lugar do analista não implica uma visão de mundo, mas uma destitução do sujeito.  Ser um sujeito implica ter uma visão de mundo até porque esta é a máscara necessária para que este não se eclipse. Ainda assim há que se dizer que o sujeito não é isso, porque há o inconsciente e ele está aí para que essas visões de mundo sejam sintomáticas, ou que sejam desmentidas de quando em quando, ou para servir de base inconfessa, enfim, muitas configurações possíveis.

Um dos meus problemas com o texto do Dunker é a forma de pensar psicanálise e política. Lógico, dá pra fazer uma crítica bastante agressiva, porque paternalizante, se você se colocar como analista para falar do comportamento público de alguém. É uma vingança perfeita, mas como diria o seu Madruga, “mata a alma e envenena”. O que é envenenado aqui é a própria psicanálise e seus propósitos.  É engraçado e me percebo agora, é que nada impede de você querer fazer a mesma coisa com quem se  arroga de analista para falar do comportamento de alguém. Espero estar escrevendo este texto no máximo como analisando pensando a psicanálise. Ninguém é analista o tempo todo. Alguns tem dificuldade de se ver fora do lugar de analista. Psicanálise pode ser benéfica para qualquer um, não para todos. Nem todo mundo se beneficia da psicanalise.  


4 comentários:

Augusto Coaracy disse...

Mas o Dunker posta como analista ou como Dunker? "Mas a psicanálise não opera sem psicanalistas e estes são muito mais terrenos do que os métodos nos quais acreditam" (ele tá se valendo da psicanálise, mas, vá lá, ela não é santa)

Aff disse...

Depende do aspecto, é mais a cola Dunker/analista que me incomoda. tem uma interpretação no texto que se pretende analítica, como se ele conduzisse uma sessão com uma pessoa que não está lá. Já me incomodei, diga-se de passagem, com o título. é bem palha, do pnto de vista biopolítico da coisa, recomendar a psicanalise para pessoas que tem comportamentos e ideias que não concordamos. acho mais sincero um soco, uma discussão, enfim...

Nimrod disse...

Sagaz seu texto. Também me incomodou um pouco o essa coisa de análise pública, e de ter criado uma nova dicotomia, ainda que o Dunker tenha ensaiado alguma abstinência apontando para esse lugar vazio do analista. Mas a psicanálise não é só uma prática, como ele mesmo lembrou também. recorrer a teoria para falar de impasses éticos... acho digno. Nesse caso o impasse é tolerar a intolerância. Quando o conflito está tão polarizado é uma estratégia que ambos os lados lançam mão: atacar defendendo, de modo que nunca se sabe quem começou. A trupe liberal acha que há um golpe em andamento e a esquerda, paranóica por natureza, é vítima de destituições desde sempre. Até aí nada de novo. Mas quando a psicanálise se torna alvo da chacota desses falastrões, como um tipo de moda da esquerda iludida (não que não seja, zizek tem me irritado) e lembrando que Freud era um conservador, como se isso fechasse a discussão, isso é ataque barato. Não acho que a psicanalise deva se limitar a clinica, nem que seja uma ferramenta da esquerda. Acho que pode lançar inteligibilidade sobre as formas de vinculação subjetiva que subjazem no social e no político, daí a esquerda se interessar mais por ela. Os liberais, com argumentos que imitam um realismo cientifico, pretendem que as relaçoes politicas sejam esvaziadas, (estado minimo e etc.), para que o mercado seja livre e produtivo. Nao raro colocam o egoismo como a principal caracteristica humana e a principal motivação o interesse proprio. É a psicologia do ego com um metodo behaviorista, onde reforço=lucro.
No entanto, quando aliada do discurso conservador, essa ideia se torna: devo ter garantida minha liberdade de ser intolerante, de limitar a liberdade do outro, pois o outro pretende me obrigar a ser tolerante, e isso é coisa de comunista.
Espero nao ter falado muita besteira. diz o que acha aí de boa. valheu.

Augusto Coaracy disse...

Irado NimRod-rigo, tô no seu encalço. Freud, por ter falado publicamente, mal ou bem, merda ou não, pegou no calo da racionalidade moderna e também da ciência. Esse mito de fundação da psicanálise inspira muito seus praticantes, pro bem e pro mal.
Se na ética clínica o que se diz e faz parte pelo trabalho com o semblante (seja ele ser uma pessoa pública), na ética de fazer política, publicar num site, entrar num embate com a direita maluca, são outras coisas que entram em jogo, inclusive usar ironias baratas através de psicanálise (deita no meu divã, bolsonaro).
Zizek e Dunker fazem isso demais, acho que dão boas bolas dentro, mas nunca "estão fazendo psicanálise"(em extensão ou intensão). Tão fazendo outra coisa, talvez o soco na cara que eles conseguem.